terça-feira, fevereiro 18

eu amo

tanto tanto mas tanto a minha mãe. mas eu sei que tenho um feitiozinho de merda. e sinto-me tão mal quando estou mal-disposta e a minha mãe é sempre a vítima, é sempre ela que leva com as minhas respostas tortas, com o meu sarcasmo e a minha ironia. sinto-me tão mal quando isto acontece, mas não consigo evitar. eu gosto tanto da minha mãe que às vezes quando começo a pensar se lhe acontecesse alguma coisa de mal ou quando tenho pesadelos com ela, começo logo a chorar. aliás, se ela estivesse em perigo de vida, sem qualquer tipo de hesitação ou dúvida, sem dar sequer tempo para pensar, tenho a certeza absoluta que trocava a minha vida pela dela. ela merece, ela faz tudo por mim. ela liga-me de manhã vezes e vezes sem conta para eu acordar, quer eu esteja em casa ou não. até ao fim-de-semana, que ela costuma dormir a manhã toda, ela acorda mais cedo para me ligar se eu lhe pedir. pode não ligar à hora certa, mas liga um bocadinho depois. ela cozinha a noite toda para eu trazer comida para Coimbra. se eu deixasse, eu não mexia um dedo em casa. já me ajudou tantas vezes com o meu pai e convencia-o a deixar-me fazer algumas coisas ou então mentia-lhe por mim, porque sabíamos que ele nunca ia deixar apesar de ser uma coisa sem mal nenhum. ela é fixe para os meus amigos e não é nada seca (ok, às vezes é, mas não tem culpa, porque os nossos critérios de seca não são iguais ahah). é um bocadinho preguiçosa para sair e nunca anda a horas, mas de vez em quando tem boas ideias para sairmos, como quando o ano passado se lembrou de me levar a ver o cortejo e a serenata na semana da queima das fitas do porto. é tão complicadinha e chata que às vezes só me apetece dar um berro. mas faz a melhor lasanha e o melhor esparguete de sempre! faz-me gelatina, porque sabe que gosto sempre de comer à sobremesa. faz outra comida para mim quando é bacalhau ou então tenta fazer quando eu não estou lá, porque sabe que odeio bacalhau. apesar de tudo, é moderna e consigo falar com ela sobre tudo (ou quase tudo, vá). mas sabe imensa coisa, sempre me ajudou com a escola e com questões da actualidade e do dia-a-dia. quando reprovei na época normal de biologia e lhe liguei a chorar, acalmou-me, mesmo à distância. é teimosa e às vezes quando discutimos, parece que não me está a ouvir e a prestar atenção e continua a dizer as mesmas coisas sem sentido, parece que não tenta perceber. mas quando estou em Coimbra e lhe ligo para perguntar coisas tão estúpidas como "posso misturar cinzento com vermelho a lavar a roupa?" ou "é muito mau ter-me esquecido de pôr sal quando fiz a massa?" ela responde-me sempre a estas coisas de quem nunca fez muito mais em casa do que lavar a loiça. e como não tenho mesmo jeito para coisas da cozinha, não consigo decorar nomes esquisitos de pratos e, portanto, pergunto-lhe sempre a ela se vou gostar da comida. compra-me vernizes e pijamas fofinhos e quando vê que eu gostei muito de um, traz outro igual noutra cor. quando vamos as duas lanchar ao café e ela pede-me sempre para dar uma trinca no que quer que seja que eu esteja a comer e eu para me vingar faço o mesmo ao dela. mas é fria fria fria, mais fria que eu ainda. quando nos encontramos vinda eu de coimbra ou despedimos para eu ir para coimbra, damos dois beijinhos como se fosse uma tia afastada e já está. e eu também me tornei assim, não me habituei a essas manifestações de afecto, apesar de o meu pai ser todo ele assim: todo amo-te muito, dá cá um beijinho e não sei quê. e por isso, nunca eu disse à minha mãe ou ela a mim amo-te. é estranho, eu sei, mas não tenho sequer dúvidas que ela me ame. eu sei que me ama. só gostava que fôssemos mais afectuosas. só isso.

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