hoje foi mais um, para mim, um dos candidatos a cadeirão do curso. sinceramente, nem sei como correu. como, aliás, todas provas. a não ser que me corra muito mal ou muito bem. apesar de ainda ter outro na 5ªfeira, sinto-me quase de férias. é apenas uma melhoria, mas tive negativa, portanto, é mesmo para subir.
e agora, apesar de já estarem fartos, o prometido é prometido, por isso...
confesso que, antes da faculdade, sempre que me falavam na praxe, não ficava muito entusiasmada e até pensava que ia experimentar uma vez e ficar por aí, por não gostar. mas sempre disse que antes de tomar qualquer decisão, ia experimentar. porque falar sem saber é a pior coisa que podem fazer, e tanta gente o tem feito, ultimamente. se não, porque outra razão, diriam, quando digo que não gosto de tremoços e nunca provei, que primeiro tenho de experimentar? é a mesma coisa. continuando, e, de facto, o primeiro dia de praxe foi terrível, odiei. depois de uma aula-fantasma, obrigaram-nos a andar de quatro, enquanto eles nos iam tapando o caminho com as capas deles, sobre o chão da nossa faculdade, que não é de algodão nem gomas, (mas parece mesmo o chão da rua), e enquanto iam cantando uma música terrível que nunca mais me esqueço ("morte ao caloiro, o caloiro vai morrer"), num ritmo assim tipo ritual vudu. passámos o dia inteiro com eles. ao almoço, nem sequer consegui comer em condições, tudo sem jeito e à pressa. bom e antes que pensem que mudei de opinião, lembrem-se que nem tudo o que parece é. é normal que no primeiro dia eles queiram parecer maus, talvez para nos assustar. a partir do segundo dia, tudo mudou. como sabem, estudo em Coimbra, e no nosso código da praxe, não é permitido a humilhação. acho que com todas as reportagens, já perceberam o que é o código da praxe. cada universidade tem o seu, e depois, mais particularmente, cada faculdade e cada curso têm as suas praxes habituais. na minha praxe, não temos de olhar para o chão. as nossas doutoras (porque a praxe em Coimbra é sexista e apenas sou praxada por doutores homens se me voluntariar) não querem que as reconheçamos pelos sapatos, mas sim pelos olhos e por isso olhamo-las nos olhos. gostei de ouvir isto, soou-me bem, mas só compreendi realmente quando uma amiga minha, praxada no Porto, me disse que um doutor lhe disse uma coisa qualquer na praxe e que ela nem sequer sabe quem é porque tinha de lhe olhar para os sapatos. achei isto mesmo estranho, e fiquei orgulhosa e contente da minha praxe tão boa, tão humana, mal seria se assim não fosse num curso de Psicologia. lá, a praxe serve para integrar, não para sujar. e por isso, na UC (sim, porque já vi caloiros sujos nos Politécnicos, eles têm o seu próprio código), não há caloiros sujos, com merda, relva, comida, o que seja. a não ser claro, que, mais uma vez, se voluntariem, como a minha colega de casa que quis entrar num lago todo sujo. para quem tem dúvidas da tão falada integração, a praxe integra mesmo. experimentem ir estudar para fora, onde não conhecem ninguém, onde não é o vosso 'habitat natural' e por isso não se sentem tão à vontade como em casa. na nossa cidade, quando temos momentos mortos, ou nem temos momentos mortos, sabemos onde ir, o que fazer e com que ir. numa cidade nova, não conhecem nada. é verdade que a pessoa de quem sou mais próxima em coimbra, a minha amiga mais próxima em coimbra, não a conheci na praxe e sim antes da aula-fantasma, mas na praxe quase nunca a vejo. eles fazem jus à integração e sabem mais ou menos com quem costumamos andar por isso nos jogos que fazemos na praxe, mudam-nos sempre de lugar e metem-nos com pessoas que não conhecemos. claro que não excluímos alguém anti-praxe, tenho, aliás, vários colegas anti-praxe, com quem falo muito, e claro que não és um 'forever alone' se te tornares anti-praxe, apenas o processo de conhecer alguém, na praxe, é muito mais rápido, imediato. na faculdade, estamos ali para estudar, ninguém vai querer saber se és anti-praxe ou não, a não ser, de facto, para saber se 'vamos juntas para a praxe?'. fazemos jogos onde temos de saber quem são, o nome do cão, do periquito, do peixe, do gato, o passatempo preferido da avó e que cuecas usou na segunda-feira (são exemplos, obviamente). temos, por exemplo, de interpretar outros caloiros. fizemos até, uma vez, uma espécie de praxe solidária, no natal. fizémos umas lembrancinhas, postais com desenhos nossos, origamis com o tema de natal, frases de natal, e fomos para a rua entregar às pessoas. fazemos despiques entre cursos (acho que esta é a minha parte preferida, decoramos músicas, letras, graças e gritamos a mostrar a força do nosso curso), fazemos brincadeiras como ir ao MacDonalds e gritar Burguer King ou gritar Pizza Hut no Mr. Pizza. até já fiz praxe em pijama! uma vez, mandaram-me ir procurar formigas fêmea e matá-las com gritos; quando um doutor me viu especada a olhar para uma árvore, deu-me uma ajudinha e fui dizer à doutora que só tinha encontrado formigas macho (ela ficou espantada, não estava à espera. ela queria, na verdade, que eu a surpreendesse, acho que ela nem tinha pensado na resposta, deu o 'enunciado' e pronto); e outras tantas, em que tínhamos de tirar outro sentido à coisa. não sei se viram uma notícia na sic sobre a praxe em coimbra, onde falaram do código, das trupes e das praxes.. falaram duma dos seios, fizeram-me essa praxe no dia das matrículas, logo assim. o lema dos caloiros no meu curso é "quando um caloiro se fode, fodem-se todos", ou seja, uma ideia de 'estamos todos juntos nisto, por isso, vamos lá pensar em conjunto e estar unidos'. a praxe que me deixou mais com esta ideia foi uma em que cada caloira recebeu uma carta de um baralho e não podíamos mostrar a ninguém. mandaram-nos juntar todos os Áses e entregar. como é que era possível? basicamente, tínhamos de 'desrespeitar' a ordem das doutoras e mostrar umas às outras e descobrir. elas queriam-nos mostrar que nem sempre o óbvio é a resposta, 'então afinal as doutoras, a quem deveríamos 'obedecer', agora vamos desrespeitá-las?'. quando a um caloiro é-lhe pedido que faça alguma coisa, os outros não devem ficar a olhar, devem fazer com ele; quando um caloiro é castigado, os outros sofrem o castigo com ele; já perceberam? nunca estamos sozinhos, por isso esforçamo-nos para que ninguém sofra por nossa causa, por chegarmos atrasados, por exemplo. nem tudo são rosas. por vezes, custa, obviamente, quando nos dizem algo injusto (quando num grupo grande, me mandaram calar e eu nem sequer estava a falar, apeteceu-me responder, mas fiquei calada), quando temos de ficar de quatro ou em posição de descanso de castigo. mas compensa tanto no final, a sério. quanto à questão de eles nem quererem saber de nós, é mentira (falo do que conheço, obviamente). no primeiro dia de aulas, esqueci-me do porta-moedas em casa, e, em praxe (sim, que, como já tinha dito, a praxe foi o dia todo, até no almoço) uma doutora emprestou-me dinheiro para almoçar. quando querem que nos sentemos no chão, oferecem-nos as suas capas para não nos sujarmos; arranjam sempre maneira de não termos de ir sozinhas para casa à noite(fui dormir a casa da minha madrinha na primeira noite que saímos e ainda nem nos conhecíamos bem); quando está a chover e estamos ao ar livre, elas levantam logo as capas e chamam-nos para irmos para debaixo delas enquanto vamos para um sítio coberto; enfim, mil exemplos... nunca fui obrigada a fazer nada nem nunca disse que não faria isto ou aquilo, porque também não precisei. nunca nos foi pedido nada surreal, absurdo, como coisas sexuais, que era um dos meus maiores receios. nem está em questão se sou cocózinha ou não, mas há atitudes e momentos certos e estes não combinariam. não consigo tirar da cabeça o momento em que estava em praxe e olho para o lado e está outro curso (em dias de chuva, os cursos estão todos ao monte) também na praxe e os rapazes estão a fazer pudim danone. na minha praxe, perguntam-nos constantemente se estamos bem - fizeram, até, uma vez, uma caixinha de sugestões -, dizem-nos que ninguém nos obriga a estar ali e que podemos ir embora a qualquer momento e voltar ou não, e que devemos ler o código praxe, é a nossa defesa, a nossa salvaguarda de muitos desses abusos que se sabe.
quanto aos que dizem que é difícil dizer não à praxe: não é, nunca experimentei, mas sei que se um dia tiver de ser vou recusar uma praxe, por respeito a mim, ao meu corpo e à minha dignidade. aliás, se não são capazes de dizer não a uma brincadeira nos vossos 17, 18 anos, se não têm essa capacidade, essa maturidade, se calhar também ainda não é altura de estarem na faculdade. há quem queira acabar com a praxe. não percebo porquê. a tourada, que também é uma tradição, infelizmente, mata pessoas (que sabiam o risco que corriam e por isso, não tenho pena nenhuma) e animais (esses sim, tenho pena, que ninguém lhes perguntou se queriam estar ali). falam da humilhação em andar com roupas esquisitas e pinturas na cara no cortejo, e eu pergunto-lhes o que faziam no carnaval ou no dia das bruxas em pequeninos. e sim, estou ansiosa por trajar, mas não por praxar. vou fazê-lo, obviamente, quero fazê-lo, nem que seja uma semana, mas acho que vou gostar mais de ter sido praxada do que praxar. veremos... enfim, tanto a dizer para tão pouco espaço... espero que tenham fica com uma ideia do que eu sinto pela praxe. para quem é anti-praxe, está, obviamente, à vontade para comentar e deixar a sua opinião. não quero exagerar, por isso, não vou comentar a situação do meco, para além de que não estive lá.
bem, se eu pagasse por letra... parabéns aos corajosos que chegaram aqui, tomem lá um caramelo!